7. ARTES E ESPETCULOS 21.8.13

1. CINEMA  DELINQUENTES DO LUXO
2. CINEMA - A HORA EM QUE A CONTA CHEGA
3. LIVROS  IMPRESSES DE ISTAMBUL
4. LIVROS  NADA MENOS QUE O DIVINO
5. MSICA  IRRESISTVEIS BOLACHES
6. MSICA  O GIGANTE OCULTO DO FOLK
7. VEJA RECOMENDA
8. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
9. J.R. GUZZO  COM UM BRAO S

1. CINEMA  DELINQUENTES DO LUXO
Em Bling Ring, a diretora Sofia Coppola reconstitui o caso real dos adolescentes de classe alta que roubavam as casas dos famosos  e faz um estudo antropolgico estarrecedor sobre os deslimites da cultura do consumismo e da superficialidade
ISABELA BOSCOV

     Marc conhece Rebecca na sua nova escola "alternativa"  para alunos irrecuperveis, num daqueles enclaves muito bem de vida de Los Angeles. Marc  um adolescente retrado, com problemas de autoestima. Rebecca se d mal com a me e o padrasto e  fashionista contumaz. Marc fica maravilhado:  a primeira vez na vida que tem uma amizade verdadeira. Juntos, e na companhia de Chloe, Sam e Nicki  esta, uma agressiva pretendente a modelo e/ou subcelebridade , eles frequentam o circuito da "jovem Hollywood", aquelas baladas em que os famosos so admirados e cortejados por gente como eles, os wannabes (ou "querem ser"). Marc e Rebecca, porm, tm outra diverso ainda. Numa noite, testam as portas dos Mercedes, Audi e BMW estacionados na sua rua para ver quais esto abertos. No dia seguinte, usam o dinheiro e os cartes de crdito roubados para torrar nas lojas de Rodeo Drive. Depois, entram na casa de um colega de Marc que est em frias com a famlia. Alm de dinheiro, levam bolsas (" uma Birkin!", comemora Rebecca ao abrir um armrio), roupas e joias, e vo embora no Porsche das vtimas. Por que no arriscar mais? Entrando, por exemplo, na casa de Paris Hilton, que segundo os tabloides est em viagem a Las Vegas. Paris deixa a chave de sua manso embaixo do capacho: mais fcil, impossvel. Marc e Rebecca passam horas escolhendo o que mais lhes agrada nos closets abarrotados da socialite. E voltam outras vezes mais, sempre que sites de fofoca como o TMZ anunciam que ela est fora. E levam as amigas. E invadem as casas de outras celebridades fashion: Rachel Bilson, Orlando Bloom, Lindsay Lohan. Esto vigiando outros alvos possveis tambm, como Zac Efron, Miley Cyrus e Hilary Duff. A essa altura, j deixaram de ser delinquentes desmiolados e viraram um empreendimento criminal. De Orlando Bloom, levam meio milho de dlares em relgios; de Paris Hilton, em certa ocasio afanam 2 milhes em joias (veja o quadro na pgina seguinte). Bling Ring  A Gangue de Hollywood (The Bling Ring, Estados Unidos, 2013), o novo grande filme da diretora Sofia Coppola que desde sexta-feira est em cartaz,  uma reconstituio fiel das atividades da gangue. E  tambm um estudo antropolgico sobre os deslimites do culto  celebridade e, na contrapartida, sobre um jeito meio extraterreno de viver: tal era a quantidade de itens de grife que as vtimas tinham em casa que a maioria delas nem notou que fora roubada. Que mundo  esse, pergunta-se o espectador, entre fascinado e meio escandalizado.
     
     O "bling ring" atuou em Los Angeles entre 2008 e 2009. Foi descoberto porque Marc e Rebecca (os pseudnimos com que a diretora batiza os verdicos Nick Prugo e Rachel Lee) foram mais do que displicentes quando entraram na casa de Audrina Patridge, estrela do reality show The Hills: a menina praticamente posou para as cmeras de segurana, como se estivesse desafiando a dona da casa a conferir como ela ficava bem com as roupas roubadas. Audrina autorizou o TMZ a divulgar as imagens, mas ningum veio denunciar a identidade dos invasores. Quando o grupo entrou na casa da bem mais notria Lindsay Lohan, porm, e as imagens de segurana foram ao ar, no havia mais como se esconder: a gangue j se tornara to grande e to arrogante, j bravateara sobre suas faanhas para tanta gente e postara tantas fotos comprometedoras no Facebook, que a polcia quase no teve trabalho para chegar at seus integrantes. 
     Primeiro a ser preso, Marc faz uma confisso copiosa e detalhada, e devolve tudo o que est em seu poder. Conforme disse o personagem real, Nick Prugo,  jornalista Nancy Jo Sales, ele tinha crises de pnico, no mais dormia, estava perdendo os cabelos e consumia cada vez mais drogas em razo da ansiedade: precisava confessar. Nancy Jo Sales, alis, primeiro em um artigo publicado na revista Vanity Fair e depois no livro homnimo ao filme (traduo de Andrea Gottlieb, Cludio Figueiredo e Loudes Sette; Intrnseca: 272 pginas; 24,90 reais, ou 14,90 na verso eletrnica),  a fonte primordial dos eventos que Sofia Coppola reconstitui: no apenas entrevistou todos os acusados, como prosseguiu o trabalho registrando a ao da Justia, as reaes das vtimas e at sua colaborao com a diretora. 
     Se Marc est corrodo pela culpa, porm, sua comparsa e mentora Rebecca, ou na verdade Rachel Lee, enfrenta a polcia com sangue-frio notvel, negando tudo: est crente de que ocultou muito bem o butim. Quando percebe que esqueceu de se desfazer de alguns suvenires (entre os quais polaroides ntimas tiradas da casa de Paris Hilton), tem um surto. Um dos casos mais irnicos (que o filme, por questes de conciso e clareza, no detalha)  o de Alexis Neiers, que aparece na sua verso dramatizada como Nicki e  interpretada com excelncia por Emma Watson, a Hermione de Harry Potter. Alpinista social ambiciosssima, Alexis acabara de conseguir um reality show com o canal E! Entertainment. Batizado de Pretty Wild, ele a acompanharia nas baladas e investidas rumo  notoriedade. A polcia chegou  casa de Alexis quando o primeiro episdio estava sendo gravado  e o programa virou, na verdade, um reality show sobre uma patricinha que tenta escapar da cadeia. Sempre que comparecia  delegacia ou ao tribunal, Alexis ia com  uma equipe de filmagem nos calcanhares de seus Louboutins. Seu momento de glria veio quando ela passou trs dias no mesmo bloco de celas que sua idolatrada Lindsay Lohan  outra que  um caso de polcia crnico e j foi tambm ela parar na frente do juiz por afanar um colar de uma joalheria. 
     Em todos os seus filmes, a diretora Sofia Coppola tem esquadrinhado aspectos diversos dos modos de vida rarefeitos. Seus protagonistas so sempre pessoas que desfrutam de mimo e privilgio e moram dentro de redomas, por assim dizer  mas pouco ou nada influem no desenrolar de sua prpria vida.  o caso, pela ordem, das irms lindas e ultraprotegidas de As Virgens Suicidas, da menina recm-casada e do ator decadente  deriva no Japo em Encontros e Desencontros, da malfadada rainha que perdeu a cabea na Revoluo Francesa em Maria Antonieta, do jovem astro entorpecido de Um Lugar Qualquer. Em Bling Ring, por contraste, Marc, Rebecca, Nicki e os outros adolescentes do grupo parecem estar no controle, ainda que de forma dramaticamente equivocada. Mas "parecem"  a palavra- chave. To profunda  a banalidade dessas vidas, to triviais e sem consequncia elas so, que no h o que controlar. Numa cena magnfica, que demonstra quo superlativa  essa cineasta, Marc e Rebecca so vistos de muito longe, percorrendo os cmodos da manso envidraada de Audrina Patridge e freneticamente enfiando peas e objetos em sacolas  e no  por acaso que o espectador tem a sensao de estar observando ratos de laboratrio em um labirinto. Consumir, para Marc, Rebecca e pessoas como eles,  uma ao reflexa e uma das nicas provas que podem fornecer a si prprios de sua existncia. O mesmo, alis, vale para as pessoas que a gangue rouba. Confira-se a manso de Paris Milton, que, com algum senso de humor ou ento falta de senso crtico, a emprestou como locao para Sofia: trata-se muito menos de uma casa que de um closet gigantesco; um lugar no onde se vive, mas onde se acumula. 
     Outra caracterstica essencial do cinema de Sofia, porm,  uma certa falta de inflexo. A diretora no "compreende", tampouco "julga" no sentido imediato que se d a essas palavras. A rigor, ela apenas observa. A entonao vem do que ela escolhe observar, da habilidade com que mimetiza na tela as vidas que est registrando e da convico que norteia suas escolhas: a de que, quando se tem  disposio um vazio to luxuoso e confortvel quanto o de seus personagens,  mesmo difcil no cair nele  mas  tambm incompreensvel que isso acontea. Em Bling Ring, h um bocado de tristeza e de absurdo no que se v da vida familiar dos adolescentes da gangue. A indiferena de pais e mes  uma constante. Quando um ou outro se importa,  at pior  Nicki e sua amiga e agregada Sam so tiradas da escola pela me abilolada para ser educadas em casa conforme os preceitos do best-seller de autoajuda O Segredo. "Muito bem, meninas, por que ns admiramos Angelina Jolie?", indaga ela numa de suas "aulas", depois de encher a crianada de plulas. 
     Criada ela prpria entre os confortos no s do dinheiro, mas do sobrenome que em Hollywood equivale ao de realeza. Sofia tambm enfrentou certa desorientao. Bateu-se para l e para c como estilista, fotgrafa, artista, produtora de TV. Mas se bateu, e muito. Acabou seguindo os passos do pai, Francis Ford Coppola  , entretanto, uma cineasta de identidade completamente em separado da dele. Por essa e outras razes Sofia tem dito em vrias entrevistas que, no, o mundo dos personagens de Bling Ring no  o seu mundo. Mas o fato  que ela o conhece por dentro, e tem se revelado sua cronista mais perceptiva e consciente.

OS ALVOS DA GANGUE
O "bling ring" adorava roubar celebridades fashion - e elas nem sempre notavam que algo fora furtado.

PARIS HILTON -  O grupo entrou tantas vezes na casa da socialite que perdeu a conta de quantas elas foram - cinco, pelo menos. Roupas, joias, culos escuros e at sapatos, embora de numerao muito maior que a das meninas, foram roubados. Paris nunca deu pela falta dos itens at um dos rapazes furtar-lhe 2 milhes de dlares em joias.
ORLANDO BLOOM - Durante trs horas, o grupo encheu sacolas e sacolas de butim, incluindo 500.000 dlares em relgios Rolex raros mais malas Louis Vuitton e at quadros. "Preciso decorar meu quarto na casa do meu pai", justificou Rachel Lee, que no filme tem o nome de Rebecca, com uma tela embaixo do brao.
RACHEL BILSON - A estrela do seriado The O.C. foi roubada em seis ocasies: Rachel Lee adorava a maneira como Bilson se vestia. A gangue roubou tanto da atriz que, para se livrar do excesso, vendeu cerca de trinta bolsas de grife suas no calado de Venice Beach. Ningum achou nada de estranho.
AUDRINA PATRIDGE -  Rachel Lee e Nick Prugo (no filme, Rebecca e Marc) entraram na casa da estrela do reality show The Hills enquanto ela estava na festa do Oscar. Levaram joias de famlia, passaporte, laptop. Rachel Lee, sentindo-se o mximo, praticamente posou para as cmeras de segurana.
LINDSAY LOHAN - As meninas da gangue - Rachel Lee em particular - idolatravam a tresloucada Lindsay. Foi o roubo fatal: a atriz cedeu as imagens das cmeras de segurana ao canal tabloide TMZ, assim como Audrina fizera meses antes. Para a polcia, ficou claro que os autores de todos os crimes eram os mesmos.

2. CINEMA - A HORA EM QUE A CONTA CHEGA
Tirada da autobiografia de Piper Kerman, uma loira refinada que foi parar na priso, a srie Orange Is the New Black estilhaa os esteretipos da vida atrs das grades.

     H meses Piper (Taylor Schilling) sabe que este dia vai chegar: a manh em que ela deve se apresentar  penitenciria onde vai passar os prximos quinze meses. Dez anos antes, Piper carregara dinheiro do narcotrfico para sua ento namorada, Alex (Laura Prepon) - e julgava que a transgresso estava enterrada. No estava: certo dia Alex  presa e a entrega. Antes de passar ao lado de l, Piper deixa o anel de diamante com o noivo e come um sanduche. Deveria t-lo saboreado melhor. Em sua primeira refeio atrs das grades, ela ofende os dotes de Red, a chefe da cozinha. At achar um jeito de se desculpar com a colega, ser mantida  mngua: as outras presas no se atrevem a lhe dar um pedao de po sequer, numa punio que se estende por dias. 
     Exibida no Netflix, a srie Orange Is the New Black no  refm de esteretipos. Algumas prisioneiras so meio assustadoras,  verdade, mas a maioria  bastante amigvel. Um dos carcereiros  um cafajeste, mas os outros se comportam com correo razovel. As instalaes so deprimentes, mas no horrendas. E nada disso alivia o pesadelo de estar l - seja para Piper, que nunca se imaginou nessa situao, seja para as outras mulheres, que, como mostram os flashbacks, estavam quase predestinadas a ela. O sufoco, na srie criada por Jenji Kohan (de Weeds), comea pela constatao de quo surreal  no poder escolher nada - o que se come, ao lado de quem se dorme, que xampu se usa -, e prossegue com outra constatao: a de que  muito mais fcil a Piper encontrar um nicho nesse ecossistema do que ela, ou o espectador a quem ela serve de guia nessa viagem, adivinharia. 
     Parte do que torna Orange Is the New Black uma experincia to incomum  a preciso com que a verdadeira Piper Kerman anotou o que ia  sua volta - a qual se soma, na srie,  excelncia da interpretao de atrizes como Natasha Lyonne, Uzo Aduba, Kate Mulgrew, Yael Stone e Samira Wiley. A outra parte, esta o prprio espectador contribui com ela:  a maneira como ele inevitavelmente se pe em cada um dos cenrios vividos pela protagonista e descobre que no faria melhor do que ela - quem sabe, alis, faria at pior.
     
     
3. LIVROS  IMPRESSES DE ISTAMBUL
Para alm de qualquer exotismo turstico, a cidade que aparece em Barreira, de Amilcar Bettega,  o resultado dos jogos de luz e sombra de quem se aventura por ela.

     De Istambul, via Skype, Ftima conversa com o pai, em Porto Alegre. Quer convenc-lo a se juntar a ela na cidade onde ele nasceu e viveu at os 6 anos. Tenta exibir os encantos da paisagem noturna que se descortina da janela, com suas mesquitas iluminadas e barcas que cruzam o Bsforo. Na tela granulosa que Ibrahim Erkaya v no Brasil, porm, a janela  apenas um retngulo negro. Anuncia-se a a natureza elusiva da cidade que serve de cenrio para Barreira (Companhia das Letras; 264 pginas; 39 reais), excepcional estreia do escritor gacho Amilcar Bettega no romance. Quanto mais Ibrahim se aproxima de Istambul, mais indiscernvel e fluida se torna a metrpole turca. Ele aceita o convite da filha s para descobrir-se um estrangeiro em sua cidade natal: no fala nem compreende o turco, e quase no reconhece ruas ou lugares. Mais grave, ao chegar Ibrahim constata que Ftima desapareceu. Sua busca pela filha enreda-se, em uma engenhosa urdidura de sincronias e simetrias, com o drama do francs Robert Bernard, autor de guias de viagem que se defronta com a morte do filho. 
     Autor de trs preciosas coletneas de contos, Amilcar Bettega, 49 anos, escreveu esse primeiro romance por encomenda. Participou do projeto Amores Expressos, que mandou escritores brasileiros para as mais variadas cidades do mundo (o projeto levantou muita grita quando se anunciou que buscaria dinheiro pblico pela viciada via da "renncia fiscal"  mas seus idealizadores sensatamente desistiram de recorrer  Lei Rouanet). A Istambul que Bettega apresenta ao leitor no  o decantado  clich do encontro (ou choque) entre Oriente e Ocidente. Tambm no existe aqui comentrio circunstancial sobre as tenses contemporneas da Turquia (embora os velhos conflitos histricos penetrem pelas frestas da narrativa: um personagem secundrio  um turco cuja mulher pertence  minoria curda). Istambul resplandece no livro como uma pintura impressionista, em que a luz  ou, antes, a percepo da luz   mais importante do que os objetos. 
     Esto l, bem nomeados e localizados, as ruas, os bairros, as mesquitas, o Grande Bazar e uma infinidade de cafs, bares, inferninhos. Mas esse cuidadoso realismo geogrfico no oferece cho firme para as criaturas perdidas de Bettega. Sem jamais resvalar naquelas pirotecnias pueris que se convencionou chamar de "experimentais", ele exerce um prazeroso virtuosismo tcnico. Sua realizao mais feliz  a narrao em looping do breve envolvimento entre Ftima e Robert, com a mesma cena se repetindo sem que jamais parea repetitiva, e tudo culminando no magistral pargrafo em que Ftima desaparece, literal e figurativamente, em uma ruela de Istambul. A cidade ancestral e extica que j foi Bizncio e Constantinopla revela-se, sob essa particularssima lente ficcional, to inapreensvel quanto Porto Alegre ou Paris, que figuram marginalmente na histria. Pois todas as cidades so, afinal, inapreensveis  como as pessoas que se perdem por elas. 
JERNIMO TEIXEIRA


4. LIVROS  NADA MENOS QUE O DIVINO
Envolvente como um romance pico, uma nova biografia do escritor russo Liev Tolsti mostra o artista dividido entre as glrias mundanas e as aspiraes do esprito.
MARIO MENDES

     Quando estava na casa dos 70 anos, o russo Liev Tolsti (1828-1910) costumava surpreender gente com metade da sua idade, que no conseguia acompanh-lo em uma caminhada pela neve. Esse hbito dirio era exercitado no ar lmpido da manh e na enregelante escurido noturna, mas nunca em caminhos livres do gelo das nevascas: o escritor preferia enfrentar as trilhas tortuosas e selvagens ou os campos abertos, onde os ps mergulhavam at os tornozelos na brancura glida. A passagem, logo no incio de Tolsti, a Biografia, de Rosamund Bartlett (traduo de Renato Marques; Biblioteca Azul; 640 pginas; 69,90 reais), deixa claro que quem desejasse seguir seus passos (trs obras-primas da literatura, milhares de exemplares vendidos e mais milhares de seguidores de seus ideais cristos pacifistas em todo o mundo, alm de dez filhos) precisaria de muito mais do que simples disposio fsica.  a maneira de a bigrafa frisar, desde o princpio, sua tese de que o sobre-humano Liev Nikolievitch Tolsti viveu "uma vida russa"  o subttulo original do livro em ingls , ''revelando tanto o dionisismo natural quanto o ascetismo cristo". 
     Especialista em literatura russa (ela tambm escreveu uma festejada biografia de Anton Tchekov), a inglesa Rosamund estava traduzindo o clssico Anna Karenina (1877) quando decidiu mergulhar num relato da vida do autor para, segundo ela, compreender melhor como ele construra uma obra literria de extrema complexidade a partir de uma prosa clara e simples. Em sua viagem pela trajetria do escritor, porm, ela providencialmente evitou a anlise acadmica. Preferiu radiografar o homem brilhante repleto de contradies, capaz de tratar a mulher e as filhas com desdm e, ao mesmo tempo, escrever sobre a condio feminina de seu tempo com empatia e sem enfeites ou retoques. 
 moda das narrativas do sculo XIX, Rosamund coloca o biografado e toda a dinastia Tolsti  que seria de origem alem e teria se transferido para a Rssia no sculo XIV  como protagonistas de um grande drama histrico russo. Alm de esmiuar os dirios que tanto Tolsti como sua mulher, Sonya, mantiveram durante toda a vida (e a caudalosa correspondncia do escritor com amigos, intelectuais e admiradores), ela inicia a narrativa com uma srie de episdios, muitas vezes cmicos, vividos pelos antepassados do escritor s voltas com os soberanos Ivan, o Terrvel, e Pedro e Catarina, os Grandes. 
     Graas  profuso de fotografias de Tolsti feitas quando ele j era um ancio de barbas brancas (e famoso internacionalmente como o lder moral da "me Rssia"), a impresso que se tem dele, ainda que absurda,  de que tivesse sido velho desde sempre. Por isso as descries das peripcias de juventude so os momentos mais coloridos do livro. Neles, a bigrafa apresenta algumas das matrizes que deram origem aos personagens da aristocracia e do Exrcito russos que mais tarde povoariam a obra monumental que tem em Guerra e Paz (1869) e A Morte de Ivan Ilitch (1886), alm de Anna Karenina, seus pontos mximos. Por ironia, foi exatamente essa parte da vida que Tolsti tentou enterrar na velhice: a do jovem nobre, filho de pai conde e me princesa e herdeiro da senhorial propriedade Isnaia Poliana, oficial do Exrcito e grande apreciador das mesas de jogo e dos  bordis. A partir dos anos 1880, Tolsti atravessou unia crise mstica que o levou a se dedicar com fervor  f crist e a adotar o bem comum como objetivo supremo. (E o levou tambm, para desespero da mulher, a desfazer-se de tantos bens quanto ela deixasse escapar de sua superviso.) 
     Durante a jornada espiritual que empreendeu at o fim de seus dias, Tolsti foi precursor de movimentos que ainda sobrevivem na pauta do dia: o anticapitalismo, o vegetarianismo, a defesa dos direitos dos animais, a luta contra a explorao do trabalho escravo e o apego  no violncia. A autora, porm, no se rende  simples glorificao do mito. D voz tambm a importantes antagonistas do escritor, como o crtico literrio e dissidente sovitico Alexander Boot, para quem "o patriarca dos bolcheviques" almejava muito mais do que a santidade em vida: "O conde Tolsti estava determinado a usurpar o emprego de Deus", ironizou Boot. Considerando que um embate do escritor com Nicolau II (que s no o mandou prender e executar porque se tratava do homem mais admirado da Rssia) terminou com Tolsti sendo aclamado pelo povo como maior que o divino czar, ao menos nos termos de uma vida russa ele chegou bem perto de tal objetivo. 


5. MSICA  IRRESISTVEIS BOLACHES
Os discos de vinil esto dando sobrevida  indstria musical, que duas dcadas atrs decretou o fim deles com a chegada do CD.
SRGIO MARTINS

     O cantor e compositor Lucas Santtana fez, neste ms, uma apresentao em So Paulo para lanar a verso em vinil do lbum O Deus que Devasta Mas Tambm Cura. Poucos anos atrs, um show para divulgar um LP (Long Play, para quem no  desse tempo) seria considerado uma excentricidade. Hoje,  tima estratgia. As vendas de discos nesse formato no param de crescer. Nos Estados Unidos, o principal mercado fonogrfico do mundo, saltaram de 1 milho de unidades em 2007 para quase 5 milhes no ano passado. No Brasil, embora os nmeros sejam tmidos (e imprecisos), existe uma demanda clara pelo vinil. "Meu lbum sairia em vinil s no exterior, mas acabou sendo lanado assim tambm aqui por causa da exigncia do pblico", diz Santtana. 
     O vinil nunca deixou de ser cultuado. Seus defensores apreciam o charme de capas e encartes luxuosos. Mais importante, consideram que os sulcos dos "bolaches" preservam melhor a gravao. No esto errados (veja o quadro abaixo), mas a fidelidade sonora  relativa: um timo aparelho ser necessrio para poder perceber os mnimos detalhes de uma sinfonia de Brahms executada pela Filarmnica de Berlim ou as intrincadas passagens de uma cano do Pink Floyd. E o bolacho, ao se desgastar, comea a produzir chiados que no existem no Compact Disc (CD). 
     Neste ano, os novos discos dos grupos Daft Punk e Vampire Weekend tiveram vendas expressivas no formato. No caso do Daft Punk, das 339.000 unidades de Random Access Memories comercializadas na primeira semana de lanamento, 19.000 foram na verso em vinil. Os nmeros brasileiros esto distantes disso. Em geral, as tiragens iniciais ficam em torno de 500 unidades. "Alguns ttulos ultrapassam essa marca. Tboa de Esmeralda, de Jorge Bem, vendeu 2000 unidades'', comemora Joo Augusto, responsvel pela Polysom, a nica fbrica de discos de vinil do pas. Mesmo assim, os LPs injetam nimo no declinante mercado brasileiro. "Mais de 60% das minhas vendas so em vinil", diz Luiz Carlos Calanca, da Baratos Afins, uma das mais tradicionais lojas de discos do centro de So Paulo. Houve tambm uma mudana no  perfil do comprador: o que era fetichismo saudosista comea a seduzir os jovens. "O pblico procura discos histricos, mas tambm h interesse por artistas contemporneos como Criolo", diz Mrcio Custdio, da Locomotiva Discos, que organiza uma feira de vinil. E os bolaches antigos so itens disputados por colecionadores e artistas. "Minha ltima aquisio foi Emulando o Samba, de Tom Z", comemora Santtana. Faz sentido: samba do tempo em que se sabia faz-lo, ouvido num formato da poca em que era preciso estante para guardar msica. 

DO SULCO  NUVEM
Compare trs meios de ouvir msica

VINIL
Vantagem  A sonoridade  aveludada e parece mais natural
Desvantagem  Maior interferncia de rudos - chiados e cliques - quando o disco se desgasta

CD
Vantagem  Reproduz todo o espectro da audio humana em som lmpido, sem interferncias
Desvantagem  O som do CD  digital, mas nossos ouvidos so analgicos. Dependendo do mtodo de digitalizao, a msica pode soar artificial ou at "metlica"

MP3
Vantagem  Formato digital que ocupa menos espao do que o udio dos CDs, o MP3 permite compartilhar msica pela internet e armazen-la em celulares e players 
Desvantagem  A resoluo do som  menor


6. MSICA  O GIGANTE OCULTO DO FOLK
A improvvel histria de sucesso de Sixto Rodriguez

     Em maro de 1998, Sixto Rodriguez, empregado do ramo de demolio em Detroit, pediu alguns dias de licena no trabalho. Explicou ao chefe que pretendia viajar para a frica do Sul, onde era mais popular que Elvis Presley e os Rolling Stones. Deve ter soado como a pior desculpa j inventada para faltar ao trabalho. Mas era verdade. Por uma dessas conspiraes do acaso, os dois discos do americano, que somados no venderam mais de vinte cpias em seu pas de origem, foram exportados para a frica do Sul nos anos 1970. L, integraram-se  trilha de protesto contra o regime do apartheid (reza a lenda que o ativista Stephen Biko era f de Rodriguez). Sixto Rodriguez e seu renascimento artstico foram tema de Searching for Sugar Man, vencedor do Oscar de documentrio neste ano. O filme ainda no foi exibido no Brasil, mas a trilha j est nas lojas. Searching for Sugar Man traz faixas dos dois discos do cantor, alm de trs composies inditas. 
     Histrias de artistas injustiados muitas vezes so idealizaes sentimentais de personagens que, na verdade, careciam de talento. O caso mais emblemtico  o do pianista australiano David Helfgott, retratado no drama Shine  Brilhante. O filme apresentava Helfgott como uma espcie de gnio perturbado cuja carreira teria sido sabotada por um pai tirano e um colapso nervoso. Nas apresentaes que teve a oportunidade de fazer depois do filme, o pianista no se revelou o prometido virtuose. Rodriguez est em outra categoria. Seu fracasso comercial nos Estados Unidos pode ser creditado ao azar: Cold Fact, de 1970, e Coming from Reality, de 1971, so trabalhos acessveis, radiofnicos. 
     Rodriguez  um autor e cantor de forte influncia folk  a comparao mais bvia  com Bob Dylan. Sua voz, no entanto,  mais potente: soa como um Jos Feliciano da era da lisergia. As letras revelam tipos comuns da hoje falida Detroit, que j era decadente nas dcadas de 60 e 70. So traficantes (o Sugar man do ttulo), mulheres fceis, desempregados. Em 'Cause, Rodriguez fala de um sujeito que foi despedido duas semanas antes do Natal  proftico: o cantor foi dispensado por sua gravadora exatamente nesse perodo. O sucesso do documentrio rendeu a Rodriguez, hoje com 71 anos, seu merecido quinho de popularidade para alm da frica do Sul. Ele se apresentou em festivais de msica na Europa e tem feito shows nos Estados Unidos. No mudou seu estilo de vida austero: mora h quatro dcadas na mesma casa, em Detroit. 
SRGIO MARTINS


7. VEJA RECOMENDA
BLU-RAYS
TRILOGIA DAS CORES (THREE COLORS TRILOGY, FRANA/SUA/ POLNIA, 1993-1994. VERSTIL)
 Vindo do prestgio de Declogo  realizado na Polnia, com baixo oramento, nos ltimos anos da Guerra Fria , o diretor Krzysztof Kieslowski conheceu o xito internacional tambm entre o pblico com estes trs filmes emblemticos dos anos 1990. Balizados a partir das cores da bandeira francesa, eles apresentam a viso existencial do cineasta de uma Europa a caminho da unificao, porm ainda dividida por gritantes diferenas culturais e polticas. Em A Liberdade  Azul, Juliette Binoche  a mulher que, aps uma tragdia,  apanhada pelas dvidas sentimentais com o passado. A Igualdade  Branca mostra Julie Delpy como a francesa de quem o ex-marido, um imigrante polons, quer se vingar. Finalmente, Jean-Louis Trintignant faz o irascvel juiz aposentado que espiona os vizinhos em A Fraternidade  Vermelha. Num registro que vai da tragdia  comdia, sempre sublinhadas por uma ironia cida e melanclica, Kieslowski apenas observa seus personagens. No oferece julgamentos nem solues bvias. Nos extras, h interessantes registros sobre o diretor, que morreria pouco depois, aos 54 anos.

TOP GUN 3D (ESTADOS UNIDOS, 1986/2013. PARAMOUNT)
 Esta aventura do diretor Tony Scott (que se suicidou h um ano) permanece o padro-ouro do chamado "prazer com culpa": tem alma descaradamente jingosta, dilogos que no passam de fieiras de lugares-comuns, um romance cujo desfecho se anuncia antes at de seu incio e uma historinha mequetrefe de rivalidade entre pilotos de caas. Mas, por um desses mistrios da qumica, ligou-se em nvel molecular  cultura pop:  um dos filmes mais lembrados e citados de todos os tempos e, verdade seja dita, continua irresistvel  inclusive por causa do esprito camp que Quentin Tarantino to bem dissecou em 1994, em um dilogo clebre de Vem Dormir Comigo sobre a fixao muito suspeita de Maverick, o personagem de Tom Cruise, pelo piloto rival interpretado por Val Kilmer. Esta tima converso para o 3D em que o filme est sendo relanado reala outro aspecto no menos fundamental: a maestria das cenas areas protagonizadas por Maverick a bordo de seu caa F-14, o "Tomcat", contra os MIGs soviticos que ele encontra no Golfo Prsico e at contra os prprios colegas, com os quais ele simplesmente no consegue deixar de competir.

DISCO
LIKE CLOCKWORK, QUEENS OF THE STONE AGE (LAB 344)
 Seis anos separam Like Clockwork, o novo disco do Queens of the Stone Age, de seu antecessor, Era Vulgaris. Mas Josh Homme, guitarrista, vocalista e lder do grupo, no parou. Montou a superbanda Them Crooked Vultures, ao lado de Dave Grohl e John Paul Jones, e produziu um lbum do grupo ingls Arctic Monkeys. Tambm viu a morte de perto, ao passar por complicaes durante uma trivial cirurgia no joelho. Nem a longa ausncia nem a sada do baterista Joey Castillo no incio das gravaes alteraram a sonoridade do Queens of the Stone Age. Homme e seus convidados (Grohl e sir Elton John esto em Fairweather Friends, a melhor faixa do disco) produzem uma parede de barulho compacta e distorcida, com os melhores riffs de guitarra do rock americano. So marcas presentes tanto em I Sat by the Ocean, cano de apelo radiofnico, quanto no rock My God Is the Sun. H momentos singelos que podem apontar novos caminhos para a banda. The Vampyre of Time and Memory e Kalopsia, baladas ternas ao piano, mostram que existe um corao nessa montanha de brutalidade sonora chamada Josh Homme. 

LIVROS
AS VACAS DE STALIN, DE SOFI OKSANEN (TRADUO DE PASI LOMAN E LILIA LOMAN; RECORD; 420 PGINAS; 49,90 REAIS)
 "Oficialmente a prostituio no existia na Unio Sovitica", relata a protagonista Anna a certa altura do romance de estreia da finlandesa Sofi Oksanen. O livro, lanado no exterior em 2003, se vale de uma saga familiar para desmontar a lorota cnica embutida na afirmao. Assim como a autora, Anna nasceu e vive na terra de seu pai, a Finlndia  pas que teve a sorte de no ser engolido pelo bloco comunista aps a II Guerra Mundial. Sua me, no entanto, fugira da Estnia, pas bltico oprimido pelo domnio sovitico. Em captulos curtos que do saltos livres no tempo, dos anos 1940 ao fim da dcada de 90, Anna expe a devastao emocional produzida em sua av pelo regime de Josef Stalin e mostra como seu impacto se estendeu  vida da me. Ao revirar a histria das duas mulheres, a protagonista descobre inusitadas razes para seu distrbio alimentar, a bulimia (outro ponto em comum, alis, com a escritora). Mas tira da um consolo irnico: na comparao com as agruras das antepassadas, sua doena  um problema menor.

FEDERICO EM SUA SACADA, DE CARLOS FUENTES (TRADUO DE CARLOS NOUGU; Rocco; 320 PGINAS; 39,50 REAIS)
 Num ensaio autobiogrfico, o mexicano Carlos Fuentes (1928-2012) revelou sua admirao por artistas que, mesmo sem f, tm uma personalidade religiosa. Essa fascinao d uma pista das razes que o levaram a inspirar sua ltima obra em um deles: o filsofo alemo Friedrich Nietzsche (1844-1900), que decretou a morte de Deus. Fuentes expe aqui as qualidades que o colocaram ao lado de outros escritores da Amrica Latina que despontaram nos anos 1960. Exercita os dotes de ensasta atilado que sempre compartilhou com o peruano Mrio Vargas Llosa  e d vazo a outro tanto de narrativa fantstica, ponto de contato com o colombiano Gabriel Garcia Mrquez. O Federico do ttulo  aquele mesmo, Nietzsche. Numa noite quente, o protagonista Dante Loredano sai  sacada de seu prdio para tomar ar  e topa com a figura meio carrancuda de bigodo na sacada vizinha. Os dois enveredam por debates espirituosos sobre filosofia e cincia poltica, nos quais cabem de Scrates a Rita Havworth. 


8. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1. Inferno.  Dan Brown. ARQUEIRO
2. A Culpa  das Estrelas.  John Green. INTRNSECA
3. O Silncio das Montanhas.  Khaled Hosseini. GLOBO 
4. Para Sempre Sua.  Sylvia Day. PARALELA 
5. Uma Longa Jornada. Nicholas Sparks. ARQUEIRO
6. O Pequeno Prncipe. Antoine de Saint-Exupry. AGIR
7. Cinquenta Tons de Cinza.  E.L. James. INTRNSECA 
8. O Teorema Katherine. John Green. INTRNSECA
9. A Marca de Atena. Rick Riordan. INTRNSECA 
10.   Um Porto Seguro. Nicholas Sparks. NOVO CONCEITO 

NO FICO
1. Guia Politicamente Incorreto da Histria do Mundo. Lenadro Narloch. LEYA BRASIL 
2. Sonho Grande.  Cristiane Correa. PRIMEIRA PESSOA 
3. Cincia e F. Bispo Rodovalho. RECORD 
4. Dirceu  A Biografia.  Otvio Cabral. RECORD
5. Casagrande e seus demnios. Casagrande e Gilvan Ribeiro. GLOBO
6. Getlio 1930-1945. Lira Neto. COMPANHIA DAS LETRAS
7. Carlos Wizard  Sonhos No Tm Limites. Igncio de Loyola Brando. GENTE 
8. A Graa da Coisa. Martha Medeiros. L&PM 
9. Um Gato de Rua Chamado Bob.  James Bowen. NOVO CONCEITO 
10. Pensadores que Inventaram o Brasil. Fernando Henrique Cardose. COMPANHIA DAS LETRAS 

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1. Kairs.  Padre Marcelo Rossi. PRINCIPIUM
2. Eu No Consigo Emagrecer.  Pierre Dukan. BEST SELLER 
3. Casamento Blindado.  Renato e Cristiane Cardoso. THOMAS NELSON BRASIL
4. O Monge e o Executivo.  James Hunter. SEXTANTE
5. S o Amor Consegue.  Zibia Gasparetto. VIDA & CONSCINCIA
6. Receitas de Dukan. Pierre Dukan. BEST SELLER
7. O Mtodo Dukan  Eu No Consigo Emagrecer. Pierre Dukan. BEST SELLER
8. Meu Pai, Meu Heri. Anderson Cavalcante. SEXTANTE
9. Uma Prova do Cu.  Dr. Eben Alexander III. SEXTANTE 
10. Louco por Viver. Roberto Shnyashiki. GENTE


9. J.R. GUZZO  COM UM BRAO S
     Um dos aspectos menos atraentes da personalidade humana  a tendncia de muitas pessoas de s condenar os vcios que no praticam, ou pelos quais no se sentem atradas. Um caloteiro que no fuma, no bebe e no joga, por exemplo,  frequentemente a voz que mais grita contra o cigarro, a bebida e os cassinos. Mas fecha a boca, os ouvidos e os olhos, como os trs prudentes macaquinhos orientais, quando o assunto  honestidade no pagamento de dvidas pessoais.  a velha histria: o mal est sempre na alma dos outros. Pode at ser verdade, infelizmente, quando se trata de poltica brasileira, em que continua valendo, mais do que nunca, a mxima popular do "pega um, pega geral". Mas a ltima flor nascida no orquidrio nacional de escndalos, e que j recebeu o nome genrico de cartel Siemens  uma macia conspirao para fraudar licitaes pblicas, sobretudo em So Paulo e na rea ferroviria , passou de muito a mera prtica da hipocrisia. No caso, quem est na gerncia do orquidrio  o PSDB, o nico grupo poltico brasileiro ao qual se pode chamar de partido da oposio, e que h anos critica a corrupo frentica praticada nos governos do PT. S que, em vez de ficar acusando o adversrio por delinquncias que parecem no tent-lo, o PSDB foi pego numa demonstrao de que pode ser atrado, e muito, por elas  ou seja, ficou dando ao Brasil lies de moral sobre os vcios do PT, em pblico, e praticando precisamente esses mesmos vcios, em particular. 
     Os delitos, que comearam a acontecer h pelo menos quinze anos, em 1998, encontram-se de repente na conhecidssima categoria dos fatos que sero "rigorosamente apurados" (no Brasil, como se sabe, h dois tipos de apurao oficial, as "rigorosas" e as outras, que ningum consegue explicar direito o que so: tm em comum, entre si, o fato de sempre darem mais ou menos na mesma). O que h de certo  que durante dez anos seguidos, entre 1998 e 2008, pelo menos quinze empresas se juntaram, a portas fechadas, para combinar previamente o resultado de licitaes no valor de 1,2 bilho de reais para a venda de trens, metrs e equipamento ferrovirio ao governo.  indiscutvel, tambm, que entre os anos de 2000 e 2007 duas linhas do metr de So Paulo, outras duas de trens metropolitanos, tambm em So Paulo, e o metr de Braslia foram contaminados por ladroagem grosseira  s a, calcula-se, o prejuzo para o contribuinte pode ter ficado na casa dos 450 milhes de reais. Quem veio com as denncias no foi o PT; foi uma das prprias cabeas desse bicho que se nutre de concorrncias fraudadas, a Siemens, que houve por bem denunciar-se a si mesma para obter penas menores num eventual processo, que at hoje no veio. No h nenhuma dvida, enfim, de que durante esse perodo todo quem esteve com a chave do cofre pagador foi o PSDB de So Paulo. O que se tem, ao fim e ao cabo,  mais ou menos o seguinte: uma roubalheira iniciada h quinze anos, e denunciada por um dos prprios participantes, no havia merecido at agora, quando o caso enfim explodiu em pblico, o menor esforo de investigao sria por parte das autoridades paulistas. Se o governador Geraldo Alckmin e o ex-governador Jos Serra, para ficar nos nomes mais eminentes dessa histria, acham mesmo que So Paulo foi apenas uma vtima, e que nenhuma autoridade estadual tem coisa alguma a ver com isso tudo, por que os fatos nunca foram expostos em plena luz do sol, entre 1998 e hoje? 
     O PSDB deu uma resposta da pior qualidade s acusaes  o mesmo tipo de resposta viciada que acusa o PT de dar a cada denncia de corrupo que recebe. Acusou os acusadores; fez as cansadssimas perguntas a respeito de "quem estaria por trs", ou "quem se beneficia" disso tudo. Esto por trs e se beneficiaram,  bvio, os que ganharam com os delitos praticados  e  positivamente certo que, desta vez, o PT no teve nada a ver com a histria. As reaes de Braslia no foram melhores. Estaramos, na poltica brasileira de hoje, reduzidos a um concurso de auditrio do tipo "Quem quer roubar?". Um diz: "Eu roubo, mas voc tambm". O outro responde: "Eu roubo, mas voc rouba mais". Nesse caso,  melhor chamar como rbitro o general lvaro Obregn, chefe militar e poltico no Mxico dos anos 10 e 20 do sculo passado. Obregn, entre outras proezas, perdeu o brao direito numa batalha contra Pancho Villa e, segundo o anedotrio mexicano, candidatou-se depois  Presidncia da Repblica com o seguinte lema: "Votem em mim, que tenho um brao s. Vou roubar a metade do que os outros".


